quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Armon Entrevista: Sidney Gusman


Feliz ano novo, galera!

Primeiro dia do ano de 2014 hoje e mais 365 dias vem pela frente para a gente fazer ter valido a pena! E aqui estou eu com mais um Armon Entrevista! Para começar o ano com o pé direito, o nosso entrevistado do mês de janeiro é ninguém mais, ninguém menos que Sidney Gusman!

Formado em jornalismo pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo, Sidney é um dos maiores especialistas em quadrinhos no Brasil, tendo trabalhado em diversas editoras consagradas como editor de conteúdo ou com planejamento estratégico. Atualmente ele é editor-chefe do maior site de quadrinhos da Brasil, o Universo HQ e também trabalha no setor de planejamento editorial da Maurício de Souza Produções! Isso mesmo, Sidney foi um dos responsáveis pela revolução nos projetos relacionados a Turma da Mônica nos últimos anos, colocando em prática diversas Graphic Novels com diversos desenhistas.

Enfim, curtam agora um pouco do conhecimento dessa grande figura que é Sidney Gusman!

Estúdio Armon: Primeiramente, obrigado pela honra de ceder esta entrevista. Sei que como um dos maiores especialistas em quadrinhos do Brasil, você está sempre ocupado. Muito obrigado mesmo. Como foi seu primeiro envolvimento com quadrinhos?
Sidney Gusman: Como leitor, como todos nós.

Armon: Como iniciou sua carreira no ramo?
Sidney: Bem, quando terminei o colegial, aos 17 anos, entrei na faculdade de Educação Física (por ser apaixonado por esportes). Eu me formei em 1986 e em 1988 cursei jornalismo. Claro que a intenção era trabalhar com jornalismo esportivo, o que fiz (em rádio) por quase dois anos.

Mas era uma época brava. Não ganhava nada (mesmo) na rádio e ainda estava na faculdade de jornalismo (A Metodista, de São Bernardo do Campo, na qual me formei em 1991). Então, eu e um grupo de amigos criamos um jornal mural (falo de 1989, não tínhamos nem sequer computador, quanto mais internet), no qual comecei a fazer algumas críticas de quadrinhos. Era a época do boom de editoras como Abril Globo, e todos os grandes jornais de São Paulo abriam páginas e páginas para falar de HQs.

Aí, como a galera da faculdade sempre falava que meus textos estavam bacanas, decidi usar minha boa e velha cara-de-pau para tentar a sorte! Enfiei vários desses textos (datilografados, em sulfite e com as pontas das folhas furadas – por causa das tachinhas) debaixo do braço e saí visitando as pessoas que escreviam à época - André Forastieri (Folha), Marcelo Alencar (Estadão), Alessandro Gianinni (Jornal da Tarde), Franco de Rosa (Folha da Tarde), Rosane Pavam (Diário do Grande ABC) e Leandro Luigi Del Manto (Editora Globo).


Fui sempre bem recebido, mas conseguir um frila eram outros quinhentos. Até que, numa dessas visitas, o Leandro leu e gostou do meu texto sobre Cinder e Ashe (é este ao lado), minissérie que ele editou ainda na Abril. Aí, perguntou se eu gostava de música, porque queria publicar na HQ Press (seção que saía nas páginas centrais de Sandman e Fantasma, este último um remake feito pela DC Comics nos anos 1990) uma matéria sobre quadrinhos e música!

Cara, naquela hora, minha alegria era tanta, que se o Leandro me perguntasse se eu gostava do Palmeiras (Sou corintiano fanático, como quem me segue no Twitter e no Facebook sabe) era capaz de dizer sim... Bom, agora exagerei um bocado! :-)

Lógico que topei! Lembro que quando saí da Globo (Na rua do Curtume, na Lapa, onde voltei a trabalhar em 2006, agora na Mauricio de Sousa Produções), virei pra trás pra ver se tinha alguém olhando e, quando me vi sozinho, dei um salto, como se estivesse comemorando um gol. E, pra mim, foi um gol mesmo! Era a chance de entrar no mercado de quadrinhos, algo que, até então, era um sonho apenas.

Só quando baixou a adrenalina que percebi: a missão não seria nada simples. O Leandro queria sete laudas (9.800 caracteres). Eu quase não tinha material de referência e meu conhecimento sobre quadrinhos não era tão grande. Aí, liguei para a saudosa Livraria Muito Prazer, que ficava na Av. São João, expliquei a situação e perguntei se poderia passar o dia pesquisando lá.

Como a resposta foi sim, fiquei lá horas e horas, folheando centenas de HQs e anotando, anotando, anotando. Começou aí o meu gosto pela pesquisa, algo que sempre norteou meus textos desde então.

É incrível me recordar como as coisas mudam, mas aquele texto eu escrevi primeiro à mão! Só depois datilografei! Resultado: 14 laudas! O dobro! Quando entreguei, enquanto o Leandro ia lendo, minha agonia só aumentava. Depois de um bom tempo, ele falou: "Gostei muito. Tenho que dar um jeito de publicar inteira essa matéria!"

A sensação de dever cumprido só não foi maior do que a satisfação de sentir que eu finalmente estava assinando minha entrada no mercado de quadrinhos.

A matéria saiu nas edições 7 de Fantasma e Sandman, e como as revistas são de 1990, coloquei as quatro páginas (Com poucas ilustrações, porque eu escrevi demais) abaixo, num tamanho legal, pra quem quiser ler.




Depois, com ela debaixo do braço, consegui mais frilas. Passei para jornais (o primeiro foi o Jornal da Tarde), entrei na Globo, pra trabalhar como redator, escrevi para várias revistas e o resto é história (que, com o tempo, contarei aqui).

Desde então, acho que não passei nem um mês de minha vida sem escrever (nem que fosse uma notinha) sobre quadrinhos. Claro que, hoje, quando leio aqueles textos do jornal mural, penso: "Nossa, como eu pude escrever isso?". Mas isso é natural com qualquer profissional, em qualquer ramo de atividade, quando se recorda de seu início de carreira! E quer saber? É uma lembrança deliciosa! Tanto que sempre falo dela em minhas palestras pelo Brasil.

Por isso mesmo, todas essas matérias estão na página de abertura de meu portfólio (tenho todas as matérias que publiquei até hoje). Guardo-as com todo carinho, pois foi com aquelas folhas datilografadas e amareladas que minha carreira começou! E devo muito a elas!


Armon: O que uma pessoa precisa ter para trabalhar com quadrinhos?
Sidney: Depende da área que escolher. Pra editar, precisa ter cursado jornalismo, letras ou editoração. Se for roteirista e desenhista, claro, os caminhos são outros.

Armon: Você já ganhou o Troféu HQ Mix várias vezes inclusive com o site Universo HQ da qual você é editor-chefe. Você realmente gosta do que faz. Acha que existiria Sidney Gusman se não existissem quadrinhos?
Sidney: Existiria, mas certamente não seria tão realizado profissionalmente. Sou um felizardo por trabalhar com algo que amo.

Armon: Você já trabalhou em grandes editoras brasileiras como a Conrad e Panini. Como é estar bem no olho do furacão, onde as principais publicações do país acontecem?
Sidney: Nunca trabalhei na Panini, apenas como free-lancer editando a Wizard. Mas é legal ter editado tanto material legal ao longo da minha carreira. Se até hoje os leitores elogiam esses trabalhos, é sinal de que eles foram bem feitos.

Armon: Você trabalha na Mauricio de Souza Produções desde 2006, não é? Nos conte como conheceu o Mauricio.
Sidney: Foi em 1991, quando era redator da Globo. Aqui tem um pouco do meu primeiro trabalho pro Mauricio: http://sidneygusman.blogspot.com.br/2012/09/o-meu-primeiro-trabalho-com-turma-da.html.

Depois, em 1993, fui o jornalista responsável pelo Jornalzinho do Parque da Mônica, que na época não pertencia ao Mauricio! Mas tinha algum contato com ele.
Nos anos posteriores, eu o entrevistei algumas vezes, mas os laços se estreitaram em 2005, quando passei o ano o entrevistando para o livro Mauricio – Quadrinho a Quadrinho. E seis meses depois ele me chamou para trabalhar na MSP.


Armon: As recentes publicações da Turma da Mônica, assim como a Turma Jovem e as Graphic Novels têm dado uma nova cara não só para as produções da Mônica, mas também para o quadrinho brasileiro. Como surgiram essas ideias?
Sidney: Turma da Mônica Jovem era uma ideia antiga do Mauricio, e já estava em andamento quando cheguei à empresa. Já as Graphics foi um processo diferente. Depois do sucesso do MSP 50, lançado em 2009, para comemorar o cinquentenário de carreira do Mauricio, quando decidimos fazer o segundo (que se chamou MSP + 50 e saiu em 2010), já comentei com o Mauricio da ideia de fazermos Graphic Novels. Após uma rápida conversa, ele enxergou o potencial do projeto me deu sinal verde.

Então, enquanto o MSP Novos 50 (lançado em 2011) era produzido, eu comecei a bolar o projeto Graphic MSP. Em novembro daquele ano, no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, divulguei os quatro teasers; e só a reação do público já me deu mais certeza de que tínhamos um grande caminho a percorrer.

Armon: Como você enxerga o mercado de quadrinhos no Brasil?
Sidney: O Mauricio é praticamente um mercado sozinho. Mas no contexto geral, acho que estamos em formação, e boto fé que vai melhorar muito, pois nunca tivemos tanto material humano bom!

Armon: Além dos inúmeros projetos atuais, tem muitos projetos para o futuro? Pode nos contar alguma novidade que virá?
Sidney: Evidente que não. Segredo faz parte do negócio. (Risos)

Armon: Quais artistas você mais admira? Seja no cenário nacional ou internacional.
Sidney: Bom, primeiro vou elencar os meus autores favoritos que considero excelente tanto em roteiro quanto em arte: Hugo Pratt, François Bourgeon, Will Eisner, Osamu Tezuka, Miguelanxo Prado, Carl Barks, Bill Watterson, Hergé, Franquin, Laerte, Mauricio de Sousa (e dane-se quem achar que é porque trabalho com ele; o cara era genial quando escrevia e desenhava suas próprias HQs – basta ver a Coleção Histórica e as Tiras Clássicas da Turma da Mônica), Quino e Liniers. Frank Miller já esteve nesse time, mas hoje está fora.

Agora, os meus roteiristas favoritos: René Goscinny, Neil Gaiman, Giancarlo Berardi, Gianfranco Manfredi, Kazuo Koike (Lobo Solitário), Dennis O’Neil, Alan Moore, Brian Azzarello (em 100 Balas), Ed Brubaker, Alejandro Jodorowsky, Warren Ellis, Garth Ennis, Brian K. Vaughan, Guy Delisle, Bill Willingham (em Fábulas). Devo ter esquecido algum, mas é uma boa lista.

E, finalmente, os desenhistas: Neal Adams, Milo Manara, Enrico Marini (pra mim, o melhor do planeta na atualidade e, infelizmente, pouco publicado aqui), Takehiko Inoue, Flavio Colin, Alan Davis, Uderzo, Ivo Milazzo, Alex Ross, George Pratt, Moebius, Paolo Eleuteri Serpieri, Julio Shimamoto, Samuel Casal, John Cassaday, Alex Raymond, Hal Foster, Gustavo Duarte, Danilo Beyruth, Esad Ribic, Mozart Couto, Ivan Reis, Vitor Cafaggi, Hideo Yamamoto (Homunculus), Goran Parlov (especialmente em Mágico Vento), Joe Kubert e outros que certamente esqueci.

Armon: Mais uma vez obrigado pela disponibilidade e por conceder a entrevista ao nosso Estúdio. Deixe um recado para os leitores.
Sidney: Dê quadrinhos de presente! Inclusive para quem não lê quadrinhos!

***

É isso aí, galera!
Curtiram a entrevista? Quem quiser continuar acompanhando o trabalho do Sidney é só ver os artigos do site Universo HQ e comprem também as novas Graphic Novels da Turma da Mônica que estão show de bola! É realmente um trabalho digno de infinitas homenagens!
Mais uma vez agradecendo ao Sidney que cedeu um pouco de seu tempo para dar essa entrevista para nós! Muito obrigado e desejamos muito sucesso!

Até a próxima, galera!

Um comentário:

  1. O Sidney Gusman, em geral os profissionais da MSP, são muito bons e merecem admiração e respeito pelo seu lado profissional. Parabéns aos trabalhos dele e dos demais profissionais para com os estúdios do Mauricio e as publicações da turma da Mônica. Gostaria de um dia poder dizer isso pessoalmente a ele. Quem sabe? Tudo é possível.

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