domingo, 25 de outubro de 2015

[Conto] - Amor Causador

E aí, pessoal! Hoje o Estúdio Armon tem o prazer de estrear uma nova sessão aqui, a sessão de Contos! Estrelando nossa escritora Rebeca Akiyama, sempre que pudermos, teremos uma nova história curta em formato texto, para aqueles que gostam de ler. Sem restrição de gêneros, vamos tentar trazer histórias variadas e bem interessantes para você! Estrearemos com um drama romântico com direito a ilustração de abertura de Cristiane Armezina! Boa leitura!


Amor Causador
[De Rebeca Akiyama]


O homem ainda bem jovem se entretivera com uma pequena haste pontiaguda dourada em meios de areias brancas cujos minúsculos grãos queimavam com o ardente sol daquela tarde de quinta-feira. Era só mais uma monótona ocasião em que passara todo seu tempo trabalhando.

- Ai! – Gritara ao desferir um pequeno corte em sua mão com a mesma flecha que trazia consigo. O líquido rubro descera lentamente da palma até o pulso. – Ah, isso dói. – Exclamara, interrompendo o percurso do ferimento com sua própria língua. – Está na hora.

Dito em sussurros, ele puxara outras duas flechas douradas e as posicionavam em um belo arco áureo que se formava nos ares, assim eram disparadas contra as nuvens fofas e esbranquiçadas que perambulavam pelo vasto céu alaranjado. Quando atingiram a mais alta nuvem elas se separavam, indo para lados opostos e acertando o peito dos únicos dois humanos caminhando pela praia naquele momento. E a sequência não é tão difícil de prever que aqueles únicos dois humanos caminhando pela praia, provavelmente, teriam uma vida feliz juntos dali para frente.

Todos nossos dias eram assim. Seres como eu e o jovem Logan existiam para acender o amor apagado nas pessoas no momento que se cruzavam pela primeira vez. Acaso, era assim que os mortais nos chamavam quando na realidade o destino que eles tanto almejavam não passara de humanoides flutuantes se autodeclarando deuses do amor.

Entretanto as coisas começaram a dar errado para Logan um pouco antes de realizar o último trabalho. Naquela quinta-feira o jovem estava sentado em um alto lustre de um caótico bar bem próxima àquela praia. Mais uma vez ele armara seu arco com outras duas flechas e esperara o momento certo para atirá-las.

Um dos alvos era um homem, alto e moreno, que bebia uma dose de tequila ao balcão junto de dois companheiros e o outro era uma mulher não muito charmosa, mas naquela noite subiria pela primeira vez no palco daquele estabelecimento, para cantar. Assim, Logan esperou.

A senhorita começara a cantar, mas a criatura celeste não soltara as flechas. Seu braço naquele instante travou assim como seus pensamentos e músculos. Cada nervo de tuas mãos formigavam e o faziam estremecer por completo, assim o arco desaparecera no ar contra sua vontade.

Seu leve corpo ia pairando lentamente nos ares até que seus pés chegassem ao chão e suas asas encobrissem seu corpo se transformando em um formal terno branco como suas penas. Caminhara então delicadamente até o banco mais próximo do palco e ali ficara, respirando o mais profundo que conseguira e esperando toda aquela paralisia e constante dor partirem.

A melodia ressoara em seus ouvidos com toda a harmonia transmitida, de uma maneira em que cada nota estourasse em seus ouvidos. O canto lhe trouxera uma vivência campal e o fizera criar memórias que só existiam em seu subconsciente, era como uma folha dançando pelo vento ou até mesmo uma gota d’água caindo das telhas até o chão, era suave. Se sentira tão diferente mesmo predizendo não ter mudado absolutamente nada naqueles dois minutos e trinta e sete segundos de cântico, todas suas veias estavam pulsando freneticamente.

Fora só quando o show se encerrara e o bar fechara que decidiu segui-la até a rua pouco iluminada dos fundos do estabelecimento apenas para observá-la mais de perto. Então uma única pedra chamara a atenção da mulher.

- Quem és tu? – Questionara com formalidade se virando à criatura.

- Logan. – Demorara a responder, quase tropeçando em suas próprias palavras. – Fora uma ilustríssima apresentação, tão bela quanto ti. Vens aqui todas as noites?

-  Não, esta era minha primeira apresentação, entretanto pretendo seguir em frente com isto e tentar todas as noites daqui em diante. Grata por teus elogios. Fico bem alegre em saber. – Sorrira de um maneira majestosa cujo peito do Jovem Logan se atrevera a acelerar ainda mais.

- Deve ser muito sortudo o homem que lhe conquistar. – Confessara retribuindo o sorriso de uma forma sem graça.

- Quem sabe se tu não me conquistas primeiro? – Desafiara-o

- Impossível, tu não irás se lembrar de mim. Nem hoje, nem amanhã e nem daqui dez décadas, não por que não queres, mas porque não deves. – Nisto dito desaparecera completamente da frente da mulher e, assim como declarara, as memórias sobre a conversa se apagaram.

O Jovem criara asas, voltando a sua forma original, ele não poderia mais ficar ali.

- Tem algo de errado comigo, Nartur. – O jovem me disse. – Minha cabeça parece que vai explodir de dentro para fora, assim como meu tórax.

- Não consigo lhe compreender. Tu falas de uma maneira tão dramática que não sei ao certo se disseras no sentido literal ou queres que eu faça toda uma releitura de tua mente.

- Certamente, estou na mesma situação que ti neste momento, sem compreender nada. Apenas entendo que há algo de errado comigo, isto não estava nas leis, estava?

- Como posso saber se não me disseste o que é?

- Adivinhe. – Me sugerira. – Pois também não sei.

No dia seguinte novamente uma tentativa falha de realizar seu trabalho, mais uma vez seus músculos o traíam. Então esperara o bar fechar e a mulher aparecer naquela mesma rua pouco iluminada dos fundos do estabelecimento.

- Ei, tem um minuto? – Questionara, desta vez a chamando, bem diferente da noite anterior.

- Quem és tu? – Se repetia, ela era bem cautelosa.

- Me chamo Logan. – Tornara a se apresentar e elogiá-la. – A propósito, tu cantas muito bem, começaste a se apresentar ainda ontem, não?

- Exatamente, tu estiveras aqui?

- Sim, estive, não sou muito de me enturmar. Venho sozinho, fico ao canto.

- Talvez deveria lhe acompanhar quaisquer dia? – Propusera.

- Impossível. – Declarara mais uma vez fugindo, as palavras doera novamente, ainda mais fundo, como se penetrassem.

Pensou que poderia viver assim para sempre. Todas as noites encontrá-la, ter uma conversa estranha e fugir, pois sabia que mesmo que conversasse com ela um milhão de vezes, poderia recomeçar no dia seguinte, como se nunca tivessem se encontrado.

- Boa noite, cantas já há muito tempo? – Perguntara em uma outra noite.

- Há um mês. Nunca o vi, começastes a frequentar este bar quando?

- Há pouco tempo, mas certamente, de todos os bares que já frequentei nunca vi ninguém como tu. – E então continuara, não deixando ela responder aos seus elogios. – Tuas músicas fazem questionar-me “O que é o amor?” – Confessara. – Tu sabes o que és? Eu adoraria saber.

- Pouco entendo disso senhor. Queria responder tua pergunta, mas nunca me apaixonei. Acredito que então não posso falar com firmeza sobre isto. Me desculpe.

- Compreendo, mas independentemente do significado desta palavra tão devoluta, eu sinto que não consigo mais viver de conversas repetidas. Seria adorável se você lembrasse de mim um única vez. – Assim fugira de novo das palavras dolorosas que a mulher lhe diria.

Quando éramos bem pequenos, ainda treinando nossas pontarias, lembro vagamente desta pergunta.

“O que é o amor?”

Costumávamos perguntar várias e várias vezes isto à Mãe.

“Por que devemos gastar nosso tempo com humanos? Por que eles precisam se apaixonar?”

E nós nunca éramos respondidos como queríamos. Ver Logan daquele jeito me fez pensar muitas e muitas vezes sobre isto. Ele não poderia estar amando. Anjos não sentem nada, pois é o que nos ensinavam.

Contudo, enquanto todos os outros de nós finalizavam ininterruptamente seus trabalhos, Logan ainda estava preso à um. Todos os dias fazendo as mesmas coisas, ignorando todas nossas leis. Ele fora encontrá-la de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo e de novo. Nas segundas, nas terças, nas quartas, nas quintas e nas sextas, isto porquê ela não se apresentara aos fins de semana, caso contrário o sábado e o domingo não escapariam também.

Logan não voltara mais para o valhacouto, fazia quase um ano. Mesmo chovendo, mesmo nevando, mesmo com o mundo inteiro acabando, ele ainda continuara com tudo aquilo.

- Tens três dias. – O avisei em nosso último encontro.

- Três dias?

- Eles estão pressionando para que termines o trabalho. Vão lhe substituir, lhe exilar ou até mesmo lhe arrancar as asas.

- “Ou”? – Logan me perguntara inexpressivo.

- Ainda não decidiram. – Eu comentara.

- Diga, se preocupas comigo?

- Sim, tu não és mais o mesmo de sempre.

- Então tu sentes. – Me desafiara.

- Nós não temos sentimentos, isto é algo humano demais para nós, largue estas suas ideias lúdicas. Nós não podemos ter o que criamos, afinal, como criaríamos para nós mesmos?

- Se não sentes, deixe-me morrer ou ser “exilado” pelos anciões. Não mudará nada, porque sentir falta ou sentir a dor da perda é algo humano demais, mesmo se for aquele com quem convive desde pequeno.

“Não me coloque no seu mundo ilusionista. Você tem três dias.” Fora a última coisa que lhe disse.

E pelos próximos dois dias fez a mesma coisa que fizera em todos os outros, entretanto mesmo assim ele sabia o que tinha que fazer.

- Olá. – Desta vez tinha em mãos um buquê de astromélias rosas. – Fora encantador tua apresentação, queria lhe saudar com estas flores. – Mentiu.

- Ah, sou grata por isto. A propósito, quem és tu?

- Logan. – Dissera pela última vez. – Eu que sou grato, por tudo. Todas as conversas das quais não lembras. Todas as músicas das quais cantou. Todos os sorrisos que me deras. Sou grato. Talvez não seja de fato impossível.

Então pela última vez fugira e no terceiro dia estava mais do que pronto. Ou pensara que estava.
Preparou mais uma vez seu arco áureo junto de suas flechas douradas e as miravam bem na direção do palco. Assim atirara no coração da mulher no momento em que começara a cantar.

Estava feito, faltava apenas a segunda flecha. Suspirara fundo, mais uma vez com seus braços trêmulos ele sabia que não conseguiria atirar. Segurando aquela única flecha com suas duas mãos, o jovem Logan não suportara toda pressão e a cravara em seu próprio peito.

Tornando, assim, seu terno branco em puro escarlate. Eu lhe avisei várias vezes que quem cria o amor não pode tê-lo.


***


Não deixe de comentar o que achou!

Confira também o passo-a-passo da produção da ilustração do conto, feita pela talentosíssima Cristiane Armezina, aqui no blog pessoal dela:

http://cristianearmezina.blogspot.com.br/2015/10/o-mensageiro-ilustrando-um-conto.html 

Até a próxima!

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